Mostrando postagens com marcador Pena livre. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pena livre. Mostrar todas as postagens

sábado, 8 de outubro de 2011

Fé, Ciência, Democracia

                                  João Baptista Herkenhoff
Não há qualquer incompatibilidade entre Ciência e Religiosidade, nem também entre Religiosidade e Democracia.
Sobre a coerência entre o pensamento científico e as concepções religiosas, já Einstein dava o seu testemunho afirmando que a Religião e a Ciência eram complementares: “a Ciência sem a Religião é manca; a Religião sem a Ciência é cega.
”Max Jammer, que foi colega de Albert Einstein em Princeton, testemunha que este entendia pudesse um cientista ser um homem religioso. A visão de Einstein era de uma perspectiva cósmica, não antropomórfica, de Deus. O caminho científico, diversamente do caminho religioso, é mais abstrato e menos sincrético. No final da trajetória, entretanto, ambos os caminhantes podem ver-se irmanados à face do divino.
Ieda Assumpção Tillmann, Cristina Lopes Horta, Paulo Sousa e Flávio M. de Oliveira, pesquisadores da Universidade Católica de Pelotas, observam que o exame mais detalhado das relações entre religiosidade e condições físicas, psíquicas e sociais do indivíduo só pôde ocorrer depois que a cultura conseguiu desatrelar-se do pensamento positivista, dominante até o século XX. Nas últimas décadas, o processo de emergência de um novo paradigma é que deu sustentação para que, em lugar de distanciamento e desconfiança, surgisse proximidade e interesse recíproco entre religiosos e cientistas.
Andrew Newberg, professor da Universidade da Pensilvânia, evidenciou aumento significativo da atividade cerebral, na região do córtex pré-frontal, durante a meditação, o que é consistente com o processo de atenção focalizada.
Wolfgang Maass, pesquisador de Neurobiologia do Instituto Salk (Estados Unidos), constatou que orações podem ajudar a curar doentes. Preces rezadas, antes das intervenções médicas em pacientes que se submeteriam a angioplastias, trouxeram resultados positivos, formando, assim, um elo entre espiritualidade e saúde.
Quanto à coerência entre Religiosidade e Democracia, só não existe essa coerência dentro de uma visão fundamentalista de Fé.
O Fundamentalismo, ou seja, a pretensão de deter toda a verdade, a intolerância para com o divergente, o carimbo de herege aposto aos que discordam não é monopólio do Islã, como tantas vezes se propala. Também entre os cristãos existem fundamentalistas.
A Religiosidade não é fundamentalista. O Fundamentalismo é, a meu ver, uma corrupção da Religiosidade. A Religiosidade coere perfeitamente com uma concepção democrática de vida e de sociedade.
João Baptista Herkenhoff é Professor pesquisador da Faculdade Estácio de Sá do Espírito Santo e escritor. Acaba de lançar Curso de Direitos Humanos, seu quadragésimo segundo livro, que saiu pela Editora Santuário, de Aparecida, SP.
Homepage: www.jbherkenhoff.com.br

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

No outro há também um eu


Gilvan Vitorino C. S.

Meus pais sempre lutaram com muita dificuldade. E coube-lhes, na sua mocidade, já casados (mais mocidade da minha mãe, pois casara-se com 17 anos; menos de meu pai, porque com 28), dificuldade não só financeira, mas, agravada, porque seu primeiro filho nascera com “paralisia cerebral”. Assim, lutar por condições de sustento e amparar um filho com tamanha limitação foi uma rotina na sua vida. E, não bastasse tudo isso, mais três rebentos se somaram à família, todos cujas idades não diferiam de mais de dois anos na ordem de nascimento.

Tal realidade me pôs em contato com uma sorte de atividades e conceitos dos quais eu não poderia mais me afastar. Os filhos, todos homens. Portanto, cedo eu aprendi as atividades do lar: lavar as louças, limpar o chão e cuidar do irmão mais velho – o mais carente – eram atividades comuns para nós. E, muito por isso, aquele conceito de que tais atividades eram exclusivas de mulher, nós, cedo, aprendemos a repudiar.

Rubem Alves tem uma obra, “Conversas sobre Educação”, que seria muito proveitoso se todos pudessem lê-la. Em crônica desta obra intitulada “Carta aos pais”, ele faz um alerta.   

Ele diz assim: “Compreendo, portanto, que vocês [pais] tenham torcido o nariz ao saber que a escola ia adotar uma política estranha: colocar crianças deficientes nas mesmas classes das crianças normais. O seu nariz torcido [o nariz dos pais] disse o seguinte: Não gostamos. Não deveria ser assim!”

E, mais adiante, continua Rubem: “Se é assim que vocês pensam, eu lhes digo: Tratem de mudar sua maneira de pensar rapidamente porque, caso contrário, vocês irão colher frutos muito amargos no futuro. Porque, quer vocês queiram, quer não, o tempo se encarregará de fazê-los deficientes”.

Em seguida, após citar um texto bíblico conhecido (Eclesiastes 12: 1-8), que fala dos anos difíceis que nos esperam a todos, os anos da velhice, anos em que todos nos tornamos carentes, com limitações – principalmente físicas: os olhos já não vêem como antes, os braços já estão fracos, as pernas cambaleiam, os ouvidos já confundem -, um tempo em que se ansiará por atenção dos mais novos, este sábio escritor adverte: “Esqueçam. Os interesses dos netos são outros. Eles não gostam de conviver com deficientes”. E, continuando, enceta:  “Eles não aprenderam a conviver com deficientes. Poderiam ter aprendido na escola, mas não aprenderam porque houve pais que protestaram contra a presença dos deficientes”.

(Em tempo: observe-se que Rubem Alves trata o termo “deficiente” na acepção tomada pelos pais, uma acepção tomada como demérito. Portanto, antes que se critique o autor, veja-se que ele utiliza o mesmo termo no início e fim, para que fique evidente como se constrói um preconceito...)

 Ainda na faculdade, naqueles grupos de estudos e debates na FDV, quando dialogávamos sobre a situação socioeconômica em que vive a maioria da população, eu, freqüentemente, fazia uma advertência: há muitos indivíduos que não conhecem a realidade dura em que vive a maior parte da população brasileira. Aqui na Grande vitória, por exemplo, é possível que várias pessoas não conheçam e nunca venham conhecer tais dificuldades: porque todas as necessidades identificadas pelo indivíduo de condições abastadas podem ser satisfeitas sem contato com os problemas dos “miseráveis”! Ora, as lojas da sua preferência, as melhores escolas particulares, os cinemas, os melhores hospitais, tudo isto está bem perto deles. E tudo bem interligado por boas vias de acesso. Em geral, vão de carro próprio ou de táxi. Os cinemas estão nos “shoppings centers”. Para sair do estado, viajam de avião.

Eu provocava esse debate, não para desconsiderar os que têm tais facilidades, mas para mostrar que sem um contato com a miséria dos miseráveis pode-se viver uma vida sem nenhum incômodo, sem a necessária consciência de que há problemas sérios a serem enfrentados por todos aqueles que acreditam que o ser humano tem dignidade onde quer que ele esteja.

Ora, como saber o que é um esgoto fluindo por uma rua sem um dia ter precisado pular uma valeta para não molhar e sujar os sapatos? Como imaginar a fome sem ver uma despensa vazia, sem ver uma barriga listrada pelas costelas? Como entender o problema fundiário sem visitar um acampamento de trabalhadores ansiando por um pedaço de terra para lavrar? Como saber dos problemas desses menores na rua e dos menores de rua levantando – quase em desespero! –o vidro da janela do carro?   

De alguma forma, mas de outra maneira, não através do que mostra a grande mídia, é preciso que o indivíduo se aproxime do “outro”, distanciando-se, pelo menos por algum momento, de si mesmo, para ver que há mais coisas por aí do que aqueles prazeres que o orbitam.

Quando eu era criancinha, com uns 04 anos de idade, morávamos no município de Baixo Guandu, no norte do Espírito Santo. Nossa casa era vizinha de uma delegacia, muito freqüentemente chamada “cadeia”. Alguma lembrança eu ainda tenho da grade da cela, uma pequena grade como janela, que dava para a lateral do terreno em que morávamos. E, por causa dessa lembrança, alguns dias atrás é que me dei conta de quando eu fui apresentado a esse ser tão desrespeitado, tão ultrajado em seus direitos, tão humilhado, que é o preso.

Foi naquela época. Ele, cujo nome até hoje meu pai não esqueceu, chamava-se Adão, apareceu na minha vida para que pudesse, cedo, saber que dentro de uma cela há sempre um ser tentando sobreviver e que é gente! Veio-me ele para afirmar uma convicção que guardo até hoje: ele era igualzinho a mim: nariz, boca, pernas... Tudo tal como um ser qualquer. Melhor: tudo tal como um ser especial, como somos todos nós (todos, todos especiais: de “braços dados ou não”).

Lembro (e o que esqueço meus pais me socorrem) que nós aprendemos a tratar bem àquele presidiário. Ele dialogava conosco através daquela pequena janela gradeada. Há, por admirável que pareça, uma lembrança de termos recebido do Adão, eu e meus irmãos, uma laranja. Que coração! Ele, preso, solitário, com parcos recursos, quase nada, mas com um coração gigante...

Não faz muitos dias eu disse para alguém que se nossos presídios fossem cercados de acrílico, totalmente transparentes, permitindo ver todo o flagelo por que passam aqueles seres lá dentro, talvez a sociedade interviesse em seu favor e exigisse o cumprimento dos seus direitos, o direito dos presos.

Mas, não ver o que acontece lá dentro, ignorar aquela realidade, faz bem a muitos. Isto é muito semelhante ao que Jesus contou através da parábola do bom samaritano: muitos passavam de largo, porque se eles nem sequer tomassem conhecimento da necessidade daquele que pedia socorro, melhor seria para a sua consciência. Sim, acontece muito conosco: ignorar causa uma paz. Pra que visitar um hospital público? Pra que ouvir o lamento do menor na rua? Pra que saber como estão as unidades de internação de menores? Pra quê?

Todavia, como diz um grande escritor, homem da Sociologia, do Direito e da Teologia, Robinson Cavalcanti, essa ignorância não traz mais do que uma falsa paz, uma falsa paz produzida pela alienação!
   

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Ética da atividade empresarial

                                     João Baptista Herkenhoff
Bertolt Brecht, na sua famosa peça “Ópera dos três vinténs”, coloca o dilema: prender o ladrão do banco ou o dono do banco?
Essa frase é um libelo contra o banqueiro porque, à face do banqueiro, Brecht coloca a dúvida: quem é mais ladrão – o ladrão do banco ou o próprio dono do banco?
Todos os bancos, a própria atividade bancária merece o anátema fulminante de Bertolt Brecht?
É possível haver ética na atividade bancária?
Ou ampliando a indagação: as empresas em geral podem ser éticas?
A atividade empresarial, por si mesma, nega a Ética?
As empresas têm como um dos seus objetivos o lucro. O lucro pode ser ético?
Comecemos pela pesquisa etimológica.
Lucro tem origem no latim “lucru”, que significa logro.
Logro quer dizer "artifício para iludir e burlar; trapaça, fraude, cilada".
Neste caso, o lucro é um logro, um artifício para burlar, o lucro é uma trapaça.
Se o lucro é uma trapaça, o objetivo de uma empresa é trapacear.
Através deste encadeamento de frases estamos construindo um silogismo ou um sofisma?
A meu ver, se não fizermos ressalvas, estamos incorrendo num sofisma.
Não me parece que a atividade empresarial, por sua própria natureza, negue a Ética.
Mesmo a atividade bancária, aquela que lida diretamente com o dinheiro, mesmo essa atividade não me soa, antecipadamente e acima de qualquer consideração, uma atividade que contraria a Ética.
Parece-me, não apenas possível, mas absolutamente necessário, que as empresas subordinem-se à Ética.
Pobre país será aquele em que a atividade empresarial estiver descomprometida com a Ética.
Muitas empresas, muitos empresários desconhecem o que seja Ética, não têm o mínimo interesse em que suas atividades orientem-se por uma linha ética.
Mas me parece injusto lançar este juízo de condenação contra todas as empresas.
Se algumas empresas dão as costas para a Ética, muitas outras optam por uma linha oposta: fazem da Ética um mandamento.
Vamos então ao miolo desta página.
Quais são os requisitos para que uma empresa mereça o título de empresa ética?
Como fruto de uma profunda reflexão, que me acompanha de longa data, proponho doze condições que me parecem devam ser exigidas para que uma empresa conquiste o galardão ético:
1 – que a empresa saiba respeitar e valorizar seus empregados, tratando-os com dignidade, justiça, proporcionando a eles oportunidade de crescimento, entendendo que os empregados são colaboradores, e não subordinados e serviçais;
2 – que a empresa saiba valorizar e respeitar seus dirigentes, gerentes, ocupantes de cargos de chefia, confiando e enaltecendo seu esforço;
3 – que as chefias exerçam seu papel democraticamente, com delicadeza, e não de forma autoritária; que os chefes saibam elogiar e estimular os auxiliares; que emitam instruções operacionais claras e de fácil compreensão; que compreendam que o diálogo favorece um ambiente feliz na empresa, fator que contribui até mesmo para maior produtividade; que diretores e chefes entendam que direção e chefia são missões, e não privilégios, pois, em última análise, todos somos credores de consideração e compreensão;
4 – que o empregado, a que se atribui alguma falta, tenha sempre o direito de se explicar e de se defender;
5 – que a empresa crie e mantenha canais de comunicação dos empregados com as chefias, de modo que os empregados possam apresentar postulações, reclamar, sugerir;
6 – que a empresa saiba respeitar o meio ambiente repudiando toda e qualquer agressão ambiental;
7 – que a empresa não sonegue impostos mas, pelo contrário, compreenda que pagar impostos é uma obrigação social, pois só através da coleta dos impostos pode o Estado cumprir seus deveres para com o povo;
8 – que a empresa saiba exigir do Poder Público a utilização correta dos impostos para que o erário sirva ao bem comum;
9 – que a empresa rejeite qualquer forma direta ou indireta de corromper funcionários, agentes de autoridade ou dirigentes políticos com a finalidade de desviá-los de seus deveres para proveito da empresa;
10 – que a empresa respeite a privacidade do empregado, pois a privacidade é sagrada; que jamais um empregado seja repreendido em público e de forma a ser humilhado;
11 – que a empresa respeite os direitos do consumidor, que esteja sempre pronta para atender reclamações decorrentes de mau serviço ou defeitos em mercadorias e que as falhas encontradas sejam prontamente reconhecidas e corrigidas;
12 – que a empresa, como um todo, englobando empresários, dirigentes, trabalhadores, sinta-se parte de alguma coisa que é superior à empresa: a Pátria, a comunhão nacional, o sentimento de que todos fazemos parte de uma sinfonia universal, de uma caminhada da Civilização e da Cultura, na construção de um mundo melhor.

João Baptista Herkenhoff, 75 anos, é professor da Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha (ES), membro da Academia Espírito-Santense de Letras e da União Brasileira de Escritores (UBE). Tem dado palestras sobre Ética em todo o território nacional. Autor do livro Ética para um mundo melhor (Rio, Thex Editora).
É livre a divulgação deste texto por qualquer meio ou veículo.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A vassoura e a espingarda

                        Gilvan Vitorino C. S.
Quinta feira, dia 02 último, eu fui chamado para ir à delegacia onde se encontravam os jovens e adolescentes presos. Atendi ao telefonema de uma colega advogada por volta das 22:30h e logo fui ao encontro dos manifestantes e colegas defensores de Direitos Humanos.

Entrei logo para conversar com o delegado. Vi que se tratava não de criminalidade (como em regra acontece principalmente com os pobres) mas, na linha do que fala Vera Malaguti (veja no BLOG “Por um mundo sem prisões”), era mais um caso de criminalização. (Atente o leitor que, portanto, é um caso de manifestação de vontade: alguém que tem alguma autoridade para tanto decide que certa conduta é criminosa!)

Na delegacia, vi abuso flagrante de autoridade, pois conduziram meninos pra lá e pra cá constrangidos por algemas. Senão, veja o que prescreve a Lei 4898/65:

Art. 3º. Constitui abuso de autoridade qualquer atentado:
a)     à liberdade de locomoção;
[...]
i)      à incolumidade física do indivíduo;
[...]

Art. 4º Constitui também abuso de autoridade:
[...]
b) submeter pessoa sob sua guarda ou custódia a vexame ou a constrangimento não autorizado em lei;
[...]

E o STF editou Súmula Vinculante que restringe bastante o uso de algemas. Eis o texto:

Súmula Vinculante 11
Só é lícito o uso de algemas em caso de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado.


O episódio daquele dia, somado à violência verificada em Barra do Riacho, mais o espetáculo grosseiro do BOPE do Rio de Janeiro, me faz pensar que há por aí uma nova valoração política (novos rumos, novos referenciais) que lembra o fascismo. Pois uma marca do fascismo é a forte presença dos militares no poder...  

Por quê?

Ora, tanto aqui como no Rio de Janeiro, não se está diante de velhos gatunos da política. Pode-se discordar dos que governam estes dois estados, mas a história deles não é a mesma daqueles que estiveram ao lado da ditadura e se acostumaram a resolver as coisas com o uso da força policial.

Tanto aqui como lá, o expediente da força policial foi utilizado como primeiro artifício de resolução de conflitos. Então, na verdade, nem foi uma tentativa de resolver conflitos, mas de debelar o conflito. As autoridades foram muito apressadamente aos policiais buscar sua força. Não houve timidez...

O que se esperava de um governo com características populares (ainda guardo a esperança de que seja, ou volte a ser) era que seu governante fosse até as avenidas onde havia as manifestações, fosse ao quartel dos bombeiros (no caso do Rio) e olhasse no rosto daqueles que se manifestavam, enfrentasse o debate, andasse ao lado deles conversando, chamasse os manifestantes para dentro do Palácio, etc, etc.

Não sei se o modo como os jovens daqui se manifestaram nas avenidas foi o correto, não sei se foi uma manifestação sem organização... De qualquer forma, o que houve não me permite ter alguma dúvida de quem apoiar.

Sei que o que houve foi um enfrentamento entre a vassoura e a espingarda. Ora, sempre que eu estiver diante de um enfrentamento desse tipo tomarei as dores da vassoura.  

Não posso chamar o atual governo de fascista. Seria exagerado e injusto de minha parte. Mas, é preciso que a força policial seja a última alternativa. E, quando não houver mais alternativas para a resolução de um conflito (falo de um conflito com amplitude política), mesmo assim, é preciso fazer como o rio no remanso: devagar, sem pressa.

Não se pode dar muito espaço para uma instituição militar: é preciso sempre lembrá-los de que acima do seu uniforme está o Estado de Direito. E há grupamentos militares que foram treinados para odiar: ao verem uma vassoura lembram logo do cano de uma espingarda.  

Democracia e corrupção

                   João Baptista Herkenhoff

Naqueles momentos, que infelizmente são cíclicos na vida brasileira, em que grandes escândalos administrativos e financeiros ocupam o noticiário, seja o noticiário nacional, sejam os noticiários locais, podemos ser tentados a colocar em cheque a validade do sistema democrático.

No entanto, os desvios de conduta, ao que sinto, não existem como consequência da Democracia. O sistema democrático, especialmente a liberdade de imprensa, apenas torna públicos os atos desonestos.

Impõe-se fazer um balanço geral de nosso modelo democrático. Há vícios que estão na própria raiz do sistema. O debate não pode ficar circunscrito aos políticos. A sociedade civil organizada tem de exigir participação efetiva na discussão e presença eficaz nas estruturas de poder.

A quebra das artimanhas da corrupção, a superação dos vícios que desnaturam os fundamentos da Democracia, tudo isso só será alcançado através de intensa mobilização popular.

Num grande esforço nacional pela construção da Democracia creio que um papel relevante cabe à Universidade, vista como instituição que deve estar a serviço do povo. É imperativo que a instância universitária, em comunhão com a sociedade, discuta e proponha um projeto para o país.

Ao discutir o Brasil, a Universidade, ela própria, também tem de ser discutida.

Alterada em algumas de suas bases, a Universidade ficou mais bem equipada para cumprir seu papel político e social? Creio que não.

Nas universidades em geral, criaram-se Centros e Departamentos. Extinguiram-se as Faculdades. As Faculdades tinham alma. Os Departamentos são etéreos.

O curso seriado foi substituído pelo sistema de créditos. Destruiu-se aquele coleguismo que se forjava na convivência, por vários anos, dos integrantes de uma turma. A turma tornava-se uma pessoa moral, o que repercutia, favoravelmente, tanto na personalidade do jovem, quanto na atmosfera social onde essa “pessoa moral” marcava presença.

Acabou-se com a cátedra. É certo que muitos catedráticos, depois da conquista do título, supunham estar dispensados das tarefas didáticas. Penso que esse desvio ético (supor que a cátedra fosse a láurea da preguiça) podia ser corrigido, pela via acadêmica (corte de ponto do professor catedrático faltoso, da mesma forma que se corta o ponto do modesto funcionário da limpeza faltoso). Não vejo que, para coibir o abuso, o caminho devesse ter sido a supressão da cátedra.

Discutir a Universidade e o ensino em geral, discutir a saúde pública, discutir o modelo econômico, discutir a estrutura partidária, discutir o sistema eleitoral, discutir o poder do interesse privado e do dinheiro nas eleições, discutir a Justiça, discutir a intervenção cirúrgica no nepotismo e no afilhadismo, discutir os tribunais de contas que devem prevenir a corrupção para terem o direito de sobreviver, corrigir não as consequências dos males, mas os males na sua origem e na sua força de contaminar o conjunto social – este é o grande desafio.

João Baptista Herkenhoff, 74 anos, Professor pesquisador da Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha (ES) e conferencista. Autor do livro Dilemas de um juiz – a aventura obrigatória. (GZ Editora, Rio de Janeiro).
E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br
Homepage: www.jbherkenhoff.com.br

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Foi o Bino quem me contou: o Santo e o Doutor

        Gilvan Vitorino C. S.
Hoje, saindo de Viana, vi o Bino no ponto de ônibus e, então, parei. Ofereci-lhe carona. Deu sorte, pois disse que iria pelo mesmo caminho que eu. Assim, abri-lhe a porta e ele subiu, não sem antes pedir licença. Tão logo partimos, percebi que na verdade mesmo que o Bino precisasse que eu me desviasse do meu caminho eu o levaria... É que eu, no fundo, queria muito dar carona a alguém. Então, ao vê-lo, percebi logo que ele poderia ser mais do que companheiro de mera viagem.
Eu o conhecera no Fórum. Pedira-me ajuda. Ajudara-o.
Um velho negro com cara de quem já viveu um bocado. E vida dura.
Lá no Fórum, o Bino era só o Bino. Quando entrou no meu carro, contudo, fez o que era passado - e passado dos bons... – presente. Aquele velho senhor enviou-me o meu avô. Assim, ao dar-lhe carona, ressuscitei o meu velho. E não foi um gesto dele que trouxe meu avô de volta; não foi sequer sua modesta vestimenta; também não foi sua aparência. Não, nada que os olhos pudessem perceber lembrava meu avô. Nem os ouvidos meus tiveram qualquer participação na ressurreição do meu velho, embora o Bino falasse com uma voz amigável, mansa, clara. Com uma daquelas vozes dos que viveram, viram, refletiram e aprenderam, mas ainda não sabem de tudo. (E talvez poucas coisas sejam tão grande sinal de vida como a consciência de não saber tudo!).
Assim, ao entrar no meu carro, aquele velho senhor, cansado, pois viera de longe, trouxe meu avô através do gostoso cheiro que exalava. Foi o seu cheiro que trouxe de volta a... vida. Era um cheiro de quem se perfuma somente com a inodora água do banho; um cheiro de mato em dia de chuva fina, temperado com o cheiro da terra e, predominantemente, um cheiro suave dos que pitam aqueles cigarros de palha. Sei lá, eu estou tentando dizer que era um cheiro complexo, mas, confesso, não sou muito bom em descrever aromas. Tinha mais ingredientes ali naquele ambiente fechado do carro, sei que tinha, mas o que me causou impacto foi aquele aroma de quem fuma cigarros de palha, e daqueles feitos de fumo de rolo, aquele fumo que se corta habilmente com um bom canivete.  Ah, o Bino ressuscitou o meu avô através do seu cheiro...
Fizemos um longo percurso, dialogando... Eu falava pouco, percebendo que era momento de calar-me. Era quase um monólogo, na verdade. Eu via que ali estavam quase setenta anos de vida. Falou-me de dor e de alegria. Contou-me das estradas em que trabalhara: “era tudo de terra, Bino?” - admirava-me. Lembrou-se das tantas horas que gastava para sair da sua terra – Muniz Freire – para chegar a Vitória: dois dias de viagem. “Primeiro, nóis ía até Castelo, em velho ônibus, depois, de ‘Maria Fumaça’, até Cachoeiro. Ali, nóis pernoitava. No dia seguinte, novamente de ‘Maria Fumaça’, até Argolas”, disse, sorridente.
Deu tempo de ouvir muita coisa. E, embora tudo seja digno de ser contado, uma história precisa ser narrada. O Bino, foi o Bino quem me contou... Contudo, ainda que eu o chame de Bino, não era bem este o seu nome. Mas, é melhor que fique assim, pois vai que eu fique empolgado, talvez ainda impactado com o encontro com aquele velho, aquele velho que teve o poder de ressuscitar o meu querido avô, e altere alguma coisa da história! Assim, correndo este risco, é melhor que eu preserve a sua identidade, para que não lhe seja atribuído qualquer relato pouco fiel ao que ocorrera.
Ou, ainda, pode ser que eu tenha inventado essa história e esteja, agora, esforçando-me para imprimir-lhe uma autoridade transcendental. Ou ela foi um produto da minha esquizofrenia de cada dia, aquela esquizofrenia terapêutica que nos arrebata – a todos nós! - de uma realidade e nos remete a outra, dando-nos um pouco de sossego e gozo. Ou o nome do autor seja, de fato, Bino. Ou, Benedito, quem sabe? Não importa... Não importa o nome ou se o que contarei aconteceu. E, se não aconteceu, poderia ter acontecido.
Ele tinha 06 filhos, todos negros como o pai.
Por causa de um fato criminoso ocorrido na cidade, sabendo que eram sempre os negros os primeiros suspeitos de cometer tais atos, resolveu ir à delegacia dar explicações e mostrar sua inocência para o Doutor delegado. Todavia, temia ir sozinho, pois vai que o delegado o pusesse na cadeia... Assim, foi ao encontro do seu compadre Bino e o convidou para acompanhá-lo.
O compadre até aceitou ir junto, mas, duvidando que isto seria óbice a uma prisão,  e, ainda, temendo que o delegado ao invés de prender um preto prendesse dois, fez sugestão ao Santo: “Compadre Santo, a gente não vai lá só nóis não. O senhor chama os meninos, todos os seis meninos, e leva eles junto com nóis. Vai ver, compadre, que com aquela penca de moleque junto, mesmo que fosse um delegado desgraçado de ruim teria dó de prender o pai deles.”  
Assim, concordando, o Santo foi acompanhado de todos os seis filhos e do compadre Bino para falar com a autoridade.
Chegando, foi bem recebido. O Doutor foi logo vendo aquela “penca” de negrinhos, todos muito fortes, mesmo os que ainda pequeninos. Impressionado, a autoridade foi logo perguntando:
— Seu Santo, eu não entendo uma coisa: como é que os meus filhos comem de tudo o que há de melhor lá em casa: carne de primeira, verduras belíssimas, frutas fresquinhas e brilhantes, mas são raquíticos daquele jeito? O que o senhor dá para os seus filhos para que eles fiquem tão vistosos e robustos desse jeito?
— Ah, doutor, é que, na verdade, os seus filhos não comem de primeira nada. Eles comem é de segunda. Os meus, sim, comem o que há de melhor.
“Ih, vai ser preso agora mesmo”, pensou o Bino, que o acompanhava.
O doutor delegado fez cara de espanto. Levantou da cadeira, virou-se para uma janela que dava para a rua principal da cidade, pensou, pôs a mão na cabeça, e...
— Como assim, homem de Deus? Eu não estou dizendo que lá em casa o que entra pra comer é o que há de melhor pra ser comprado? Eu mesmo faço as compras – explicou o doutor.
— E é isso mesmo que eu ouvi e entendi, Doutor delegado. E é por isso que vejo somente uma coisa que o senhor falou que... O senhor me desculpe, Doutor, eu falar isso, mas tem uma coisa errada no que o senhor falou – disse o Santo, com voz meio trêmula.
— E o que está errado, homem?
— É o seguinte, Doutor. Lá na roça... bom, é lá na roça que vem essas coisas que o senhor disse que compra pra sua casa. Eu digo na roça, Doutor, pois eu nunca vi essas coisas sendo criadas na cidade. É da roça que vem a carne de porco que o senhor come; é de lá, também, que vem a abóbora, a batata e o leite. Tudo vem de lá, Doutor – explicou.
— Sim, homem, eu sei disso.
— Pois é, Doutor. Quando a gente vai no chiqueiro tratar dos porcos e vê um leitão caído, que morreu naquela noite, já com uma cor diferente, a gente corre, esquenta a água, pela ele e limpa. Aí, a gente salga ele, se estiver desconfiado do cheiro, e leva para o supermercado e vende por um preço até mais barato... Tem muito porco lá, Doutor, e isso amiúde acontece. E são ordens do patrão.  Comer a gente não come, porque a gente gosta de ter sempre um porquinho separado, cevando, pra nossa despesa. E mais, Doutor, aquelas galinhas grandes, bonitas, com coxas grossas e com peito que mais parece de um peru, a gente também não come. Aquelas é pra vender. Não pode pôr a mão não, porque o patrão não gosta. É tudo contadinho. A gente come aquelas que ficam soltas no terreiro, comendo mato, formiga, ciscando o dia todo. Lá um dia ou outro é que a gente dá um pouquinho de milho. Elas demora crescer, mas quando tá grande, ah, Doutor, é uma carne firme, muito gostosa. Essas do terreiro a gente nem precisa pôr aquelas gotas de remédio na água, pois elas bebem ali por perto mesmo, no riachin, água limpinha.
            — As verduras, Doutor – continua o Santo -, também o patrão diz que nóis num pode pegar não. Ele diz que tá tudo já encomendado. E olha que nóis cuida delas diretinho, bate sempre um produto nelas pra espantar as pragas. Elas fica muito bonitas, sabe? Mas eu desconfio que se aquele remédio dá uma ardência nos zói da gente, bonitas elas pode até ficar, mas num sei se devia comer. A nossa verdura, nóis têm uma hortinha pertinho do riachin que dá de cumê pra nóis. Nóis colhe tudinho de lá, cada dia... Nem sempre tem de tudo, pois o tempo dá, Doutor, só aquilo que é da época. Mas, o que tem a gente come. Come pouco, mas confia nelas, pois é a gente mesmo que faz o esterco, mexe a terra...
O Doutor delegado, mais ainda espantado, só ouve.
A meninada, maltrapilha, uns descalços, outros com chinelos velhos que davam dó, quietinha, ao redor do Santo, com os olhos arregalados, olhando o Doutor vestido de terno.
O Delegado senta na sua confortável cadeira e, ainda pensativo, com cara de quem descobre que passou muito tempo achando que sabia já demais das coisas da vida, indaga do seu Santo o que ele queria com ele, ali na delegacia.
— É que aquilo que aconteceu semana passada, Doutor, eu já venho aqui pra que o senhor saiba que eu não tenho nada com aquilo. Vindo pra cá, Doutor, eu até ouvi gente falando tudo que é calúnia, dizendo que é coisa de preto... Eu até trusse o cumpadre Bino junto comigo, pro senhor saber que as minhas coisas é tudo direitinho.
— Não se preocupa não, homem de Deus, quem fez aquilo é gente desocupada. Eu sei que o senhor não tem tempo pra bobagens e se ocupa bem de criar seus filhos. Quem duvidar disso, é só olhar pra eles e ver o porte dos meninos.
O Santo, aliviado com o que ouvira, olhou para o seu compadre Bino e sorriu um sorriso tímido, daqueles sorrisos felizes, mas com o cuidado da modéstia. Então, agora se sentindo menos tenso, chama a meninada pra ir embora, pedindo licença ao Doutor delegado. Já na porta, porém, volta-se e se dirige à autoridade.
— Pois é, Doutor delegado, o senhor me desculpe, mas eu acho que o senhor não deveria de aceitar ser enganado não. Se o Doutor quiser, eu mando um dos meninos trazê pro senhor alguma coisinha lá da roça, mas alguma coisinha que a gente possa tirar, com a permissão do patrão. É como eu disse, Doutor, só não posso pegar daquelas plantação de primeira, pois elas é pra vender. Qualquer dia desses, eu mando um franguinho pro senhor. Não é muito grande como esses que o senhor come, mas o doutor vai ver que carne mais gostosa. Aproveito, Doutor, e mando trazer também uns quiabo pra sua senhora fazer uma galinha com eles.
O delegado, já sentado na sua confortável cadeira, agradece o prometido. Diz, entretanto, que não precisa, mais pela preocupação com os parcos recursos do Santo do que pelo desinteresse no presente.
O Santo, todavia, faz-se de desentendido, adivinhando o pensamento do Doutor.
— Deixa, Doutor, que logo logo eu vou matar um capadinho que nóis tá cevando. Aí, eu mando pro senhor um pernil dele... Vai ver o delegado o que é um pernil de porco criado solto: pouca gordura e muita carne, Doutor.
Tendo me contado isso, o Bino percebeu que estava chegando o local onde ficaria. Suspirou aliviado, agradecendo pela carona, pois sem ela ele não conseguiria pegar o ônibus das três da tarde para sua casa.
Parei. Ele abriu a porta. Olhou pra mim, e disse: “Qualquer dia desses o senhor vai lá em casa pra comer um feijão”. E finalizou: “Deus te ajude, pelo favor da carona que o senhor me fez”.
           De tudo o que o Bino disse, só esta última fala eu assim corrigiria: “Deus ajude o Bino, pelo presente que ele me deu...”

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O ganso e o patinho

         Gilvan Vitorino C. S.

O local onde esperava para fazer o exame era um quarto coletivo, com três camas-maca. Para ali eram encaminhados os pacientes que fossem submeter-se a cirurgias ou exames de algum risco.
Chegara cedo, mais cedo do que o necessário, mas, menos cedo do que pretendera. Era assim, sempre foi assim... Agora, padecia de ansiedade maior do que a que tivera em toda sua vida. Depois de responder algumas perguntas de praxe e de assinar um termo confirmando estar ciente do procedimento, eu o acompanhei até o quarto.
Deitou-se. Um simpático e atencioso enfermeiro veio ao seu encontro. Enquanto conversava com aquele velho paciente, a fim de distraí-lo – acho que era pra isso –, procurava no seu braço, um braço magro, já mais magro do que nos tempos dos seus poucos anos, uma veia para aplicar-lhe o soro. Encontrou veia teimosa, mas introduziu-lhe, mesmo assim, a agulha.
Antes disso, é preciso dizer que aquele senhor já estava só de avental na cama-maca... talvez por isso devesse até estar incomodado, pouco à vontade. Mas, não, mesmo naquela vestimenta típica de hospital, como se fosse um camisolão – na verdade, um camisolão -, parecia tranquilo, sorridente até, disposto a uma piadinha. Podendo ser uma brincadeirinha com alguém que estivesse por ali, ou fazendo-se tema ele mesmo.
No termo de consentimento devidamente assinado pelo paciente e por seu acompanhante, lia-se que tal exame não oferece muito risco, mas, em casos muito raros, menos de um por cento, pode ocorrer alguma complicação, a ponto de exigir rápida intervenção médica, ou até a morte.
Mesmo assim, o senso de humor dele era de impressionar. Brincava com coisa banal e com coisa séria. Parecia até ser amigo íntimo do enfermeiro...
O enfermeiro se aproximou dele e o avisou que era preciso fazer uma depilação na região da virilha. Com uma maquininha, então, pôs-se a retirar aqueles pêlos já descoloridos pela idade.
Interrompeu-o o paciente:
— Rapaz, cuidado com isso, se não você vai cortar a minha bichoca.
— E, se eu cortar, o que tem de mal? Pra que o senhor precisa disso? O senhor não usa isso pra nada mesmo... - brincou o rapaz. — Ou será que ainda usa? – provocou.
— Se uso? Claro que uso. Isso mija que é uma beleza.
E o tempo ia passando e ele, agora, já mostrava sinal de impaciência, verificando as horas no seu velho relógio, com freqüência além do normal. E resmungava, dizendo já ter passado da hora de iniciar o procedimento.
Não demorou muito e o bom rapaz o levou para o centro cirúrgico, onde seria feito o exame. Mas, não mais que uma hora depois, já voltava para o quarto aquele paciente. Voltou na mesma cama-maca.
Logo logo, teve vontade de mijar. Chamou o enfermeiro e pediu-lhe para ir ao banheiro.
— Não, o senhor não pode se levantar. Tem que usar o patinho.
— Ah, o patinho. Então me dá que eu vou mijar no bico dele – encetou o velho.
        Foi risada no quarto todo.
        E não parou por aí:
        — Já que eu não afogo mais o ganso, vou afogar o patinho!
        E, o melhor de tudo, aquele senhor, já de setenta e poucos anos, parecia satisfazer-se com suas gracinhas mais do que os próprios companheiros de quarto. Aquilo era, talvez, uma forma de amolecer a vida dura que os anos insistem em infligir aos que ousam viver um pouco mais...

terça-feira, 17 de maio de 2011

Escudo da cidade

           Gilvan Vitorino C. S.

Chega a polícia,
Correm os bandidos.
Chegam os bandidos,
Correm os bandidos.

Ouvem-se tiros.
É uma bala perdida
Que cai do bolso.
Estava brincando.

Quem perdeu a bala?
Foram os bandidos,
Foram os bandidos
Ou foi a criança?

Está perdida.
Não quero achar.
Ela a achou.
Ela a perdeu.

Bala perdida,
Vida perdida.
Bala no chão
E o cálice na mão.

Sangue vertido,
Que desce do morro,
Não leva perigo,
Seca antes de chegar.